História

Embora não se conheça com rigor a data da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Montalegre, é seguro afirmar tratar-se de uma Instituição secular, enquadrando a sua constituição entre meados do século XVII (1653) e o ano de 1715.

A escassez de fontes de informação não nos permite, de igual modo, reconstituir as suas actividades mais remotas. Contudo, alguns elementos disponíveis apontam para uma forte acção desta Santa Casa na prática das obras de misericórdia ao longo do século XIX. A chamada “sopa dos pobres”, em que era distribuída a sopa e o pão aos mais carenciados, constituiu uma das suas principais actividades.

A Santa Casa da Misericórdia de Montalegre funcionou, ao longo dos tempos, na Igreja da Misericórdia, localizada no centro da vila, que dispunha adicionalmente de três divisões onde estava sediada a Provedoria, e onde também se realizavam as reuniões dos irmãos – sala das sessões.

No início do século XX a Irmandade quase se extinguiu, não se encontrando registo de quaisquer actividades relevantes por ela desenvolvidas. Todavia, em 1918, porventura na decorrência de malefícios associados ao termo da Primeira Grande Guerra Mundial, desenvolveu importante acção assistencial, em estreita articulação com a Câmara Municipal de Montalegre, prestando apoios relacionados essencialmente com a alimentação, com a prestação de cuidados de saúde, e albergando também refugiados e pedintes.
Nas décadas subsequentes a sua acção foi diminuindo gradualmente, ao ponto de se circunscrever ao pagamento dos caixões dos indigentes, através de uma comissão subsidiada pela Câmara Municipal.

Mais tarde, e num esforço acrescido de revitalização da Instituição, a Irmandade viria a ser refundada em 24 de Fevereiro de 1957. Não deixa de ser interessante uma transcrição da sua natureza e fins, plasmada no art.º 3.º do Compromisso de então:

À Misericórdia de Montalegre compete obrigatoriamente:

1.º – Criar e manter um posto de socorros de Montalegre;
2.º – Socorrer as grávidas e os recém-nascidos;
3.º – Promover o enterramento dos pobres e indigentes que não tenham família ou meios para o funeral;
4.º – Prestar socorros domiciliários.
Único – A Misericórdia, mediante acordo com a Câmara Municipal, poderá encarregar-se da assistência aos expostos (crianças abandonadas) e desamparados.

Contudo, não obstante a bondade e pertinência destes objectivos, a sua acção continuou discreta e limitada até que, em Outubro de 1982, a solicitação do Dr. Virgílio Lopes – Presidente da União das Misericórdias Portuguesas, se encetaram esforços locais no sentido da reactivação da Irmandade. Para o efeito, e por forma a liderar o respectivo projecto, foi convidado o Arcipreste da vila, Padre José Alves. Investido no cargo de Provedor, e em estreita articulação com um punhado de cidadãos que integraram a Comissão Instaladora então eleita, propuseram-se concretizar a construção de um Lar de Terceira Idade e Centro de Dia, e também de um Jardim Infantil. Assim, imbuídos de propósitos firmes, e apoiados pelo poder local, de que se sublinha a escritura de doação à Santa Casa de uma parcela de terreno com 4.680 m2, outorgada em 15 de Julho de 1983, bem como todos os apoios de natureza logística e financeira, abalançaram-se na construção de raiz do Lar de Terceira Idade e Centro de Dia, tendo sido inaugurado no dia 01 de Outubro de 1987.

O Lar, concebido inicialmente para trinta utentes, depressa se tornou exíguo, pelo que, a expensas da própria Instituição, foram sendo realizadas obras de transformação do edifício que permitiram o aumento da sua capacidade para o dobro – sessenta utentes -, o mesmo tendo acontecido no Jardim Infantil, inaugurado em 1988. A necessidade de mais espaços levou à realização de significativas obras, que conduziram posteriormente à instalação de uma Creche em 1993.

Em 04 de Maio de 1995, em pleno crescimento e dinamismo na prática da solidariedade social, a Instituição vê-se confrontada com a perda do seu Provedor – o Arcipreste José Alves. Mas a obra, reconhecida, ficou, e de acordo com as disposições do Compromisso, passou a tomar conta do leme o seu Vice, Sr. Manuel António Pereira, conhecedor profundo da Instituição, que tinha ajudado e acompanhado activa e ininterruptamente desde 1982.

Já em plena segunda fase da década de noventa, e em resultado da sentida e insuficiente capacidade de resposta para as necessidades do concelho, outro caminho não restava à Instituição senão criar condições para suprir estrangulamentos de resposta aos idosos. Foi assim, de candidatura em candidatura, e sem esmorecer em face dos atrasos e percalços que inevitavelmente estas ambições arrastam, que se avançou com o projecto de construção/ampliação do Lar, previsto para mais vinte utentes. A Instituição continuou a contar aqui com o imprescindível apoio da autarquia, traduzido em múltiplas ajudas materiais e financeiras.

O trabalho meritório da Misericórdia foi reconhecido pela autarquia com atribuição da Medalha de Mérito do Município, decidida em 22 de Maio de 2001, e entregue em 09 de Junho, por ocasião do feriado municipal, em homenagem e reconhecimento pelos serviços prestados à comunidade do Barroso.

Já entrados num novo século – XXI – o ano de 2002, marcou a entrada em funcionamento da ala nova destas instalações, apesar de a sua inauguração ter ocorrido um pouco mais tarde, em 19 de Março de 2004, dia de S. José, e também Padroeiro do Lar, integrada nas comemorações dos 350 anos.

Posteriormente, desenvolveram-se acções de impacto social relevante, com destaque para a implementação (em meados de 2004) do Serviço de Apoio Domiciliário na vila e freguesias limítrofes, contemplando mais de duas dúzias de utentes, e a Unidade Móvel de Saúde – Saúde XXI, direccionada para a prestação de cuidados médicos e de enfermagem à população do Alto Barroso.

Entretanto, em 11 de Junho de 2008, na pior das alturas, em plena fase de consolidação e desenvolvimento de projectos pioneiros e estruturantes, faleceu o Provedor Manuel Pereira.

Assegurado o processo de transição, e com a continuidade de praticamente toda a equipa dirigente de então, o Provedor Abel Rodrigues Afonso assumiu o compromisso de honrar a sua memória, dando seguimento a todas as linhas que estavam traçadas para o futuro da Instituição. A partir de 2016, Fernando Rodrigues assume a liderança da Provedoria.